Atenuantes da ênfase no discurso: entre modalizações e vícios de linguagem
Marcio D’Olne Campos
Físico e antropólogo. UNICAMP e Proposta SULear (vs NORTEar)
Introdução
A linguagem é dinâmica e quando procura ser concisa e objetiva — sem perder a ternura! — pode também se intercalar de vícios sob a pretensão de sofisticação. Tais prejuízos se manifestam enfraquecendo a ênfase emocional ou intelectual pretendida na fala ou na escrita. Esses vícios suavizam ou diluem a força com a qual se deseja comunicar, ainda que sob o pretexto do falante querer se mostrar mais reflexivo ou mais intelectual.
O supérfluo em cacoetes e modalização
Certas adjetivações carregam um efeito contrário, ou supérfluo, em relação ao que se desejava comunicar. Estas provocam uma modalização que, ao contrário da sua função essencial — apresentarem ideias de outro modo, ou sob outra feição para esclarecer — prejudicam, tanto a ênfase desejada, como a ideia a ser transmitida. São atitudes, opiniões, obrigações, dúvidas e certezas que, no exagero do uso imediatista dessas ‘modalidades do discurso’, elas convertem-se em cacoetes linguísticos cujo supérfluo só prejudica a clareza do que se deseja comunicar.
Na imprensa falada, televisiva e na internet, tem sido frequentes e desagradáveis os abusos de clichês como “poderíamos dizer que…” e “digamos assim, …”.
O pior é que tais expressões são seguidas por um português corrente e, por isso, tudo soa como se tais falantes estivessem pedindo desculpas pelo uso do seu próprio e habitual vernáculo.
Por que tornar o simples complicado?! Antepor “a questão de…” não acrescenta intelecto, nem problematização!
A simples frase pronunciada “Fulano falou sobre política”, já é clara, cristalina! Se, por outro lado, a substituírem por “Fulano falou sobre a questão da política”, aí a falta de ideia converte-se em supérfluo, pedante, inútil — tudo cheio da pretensiosa pompa e circunstância.
Cacoetes do gênero “poderíamos dizer que”, “digamos assim”, “a questão de …” ou “tipo assim…”, não tornam mais elegantes os seus discursos, ao contrário, só os convertem em mais cansativos e acrescidos de inutilidades. Um texto com ideias e argumentos cabíveis, pode e deve sempre prescindir de muletas linguísticas. Onde há ideias claras, não se impõe coisas supérfluas como “a questão de…”. Basta que se diga apenas o que precisa ser dito.
Por acaso, dois casos
Caso 1: Certa vez um aluno me perguntou: “Professor posso fazer o trabalho sobre a questão da ecologia?”
Respondi perguntando: Você quer escrever o texto sobre a questão – por exemplo – de qual dos Gilbertos? O Mestrinho[i] ou o Gil?
Diante da surpresa do aluno emendei: Por que você não faz o trabalho a partir da sua própria questão sobre a ecologia?! Por favor, parta do princípio que a ecologia é apenas um construto incapaz de formular questões! Logo, não faz sentido pensar na “questão da ecologia”, mas sim na problematização de um ser pensante sobre a ecologia.
Caso 2: Recentemente, ouvi no rádio que “existe uma campanha contra a questão do tabagismo”! Ora! Em primeiro lugar, o tabagismo não sabe colocar questões, não sabe perguntar! Em segundo lugar, se aquela campanha é apenas contra a questão, fica difícil saber se a campanha é contra ou a favor do tabagismo! O incômodo seria apenas com a “questão”– e não com o tabagismo em si?!
À guisa de conclusão
Eu lhes asseguro já ter ouvido esse “prólogo”:
“… Tratarei da questão do problema da …”!imprensa falada
[i] José Ribamar Bessa Freire. Jacaré me convidou pra dançar em Nhamundá, Taquiprati, 13 ago. 1991, [Tags: Gilberto Mestrinho ecologia Ambientalismo; Amazonas Jacaré]. Com meu abraço para o amigo Bessa. https://www.taquiprati.com.br/cronica/625-jacare-me-convidou-pra-dancar-em-nhamunda
Palavras-chave: Cacoetes e modalizações da linguagem; Vícios da imprensa falada e escrita; Supérfluo contra a clareza